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Jorge Martins abana PAICV no Porto Novo PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Ricardo Sousa   
Segunda, 21 Novembro 2011 10:09

Jorge Martins abana PAICV no Porto Novo

A intenção de Jorge Martins lançar-se como candidato independente à Câmara Municipal do Porto Novo, com o apoio do PAICV, desperta sentimentos contrários entre os tambarinas locais. Para vários sectores da sociedade portonovense, ele é o candidato que o concelho precisa para ganhar novo alento, após 8 anos de Amadeu Cruz (MpD). Contudo, o projecto autárquico do conhecido actor para 2012 encontra forte resistência da parte dos dirigentes do PAICV no concelho. É que na lógica de que o partido deve concentrar-se na escolha de um candidato consensual de entre os quatro que já formalizaram a vontade de concorrer à CMPN com o selo do partido - Emitério Ramos, Rosa Rocha, Carlos Delgado e Manuel Mota – para já Jorge Martins não entra nas contas da estrutura tambarina. Também não é de excluir um volte-face de última hora. Empurrado por um grupo de cidadãos “irreverrentes” do Porto Novo, Jorge Martins aceitou o desafio de delinear um projecto autárquico “congregador”, de união, para o qual pretende chamar “todos os portonovenses interessados em trazer mais justiça social ao concelho”. Talvez por isso, o conhecido actor e líder do grupo teatral Juventude em Marcha, faz questão de lançar-se na corrida à CMPN “na qualidade de independente”, ainda que o “apoio do PAICV seja fundamental para que a candidatura se concretize”, como confessou em conversa com A Semana. O projecto foi logo acarinhado por muitos militantes do PAICV dentro e fora do concelho, na perspectiva de que a candidatura de Jorge Martins não só seria uma lufada de ar fresco na disputa autárquica no Porto Novo, como poderia congregar os muitos apetites que ameaçam introduzir “elementos de stress” no processo de escolha do candidato tambarina no Porto Novo.

“Além do mais”, diz um observador atento, “Jorge teve um óptimo desempenho enquanto candidato na lista do PAICV-Santo Antão às legislativas de Fevereiro último, valendo-se da sua experiência de actor para passar a mensagem política tambarina. Como delegado do ICCA desde 2009, vai conhecendo mais a fundo os problemas sociais do concelho pelo que tem potencial, nesta fase mais madura da sua vida, para ser um óptimo candidato, porque não está desgastado como os outros pretendentes do PAICV”.

Estrutura tenta travar JM

Ora, apesar de ser visto como o único candidato que pode ganhar a Câmara do Porto Novo para o PAICV, o projecto de Jorge Martins esbarra nos interesses há muito instalados e esparramados na estrutura local tambarina que prefere concentrar-se na escolha de um “candidato consensual da esfera estritamente partidária”. Nada contra Jorge Martins, diz um membro da equipa que intermedeia as negociações entre os ex-vereadores Emitério Ramos e Rosa Rocha, o deputado nacional Carlos “Cacói” Delgado e o delegado dos Transportes Rodoviários em Santo Antão, Manuel Mota, que já formalizaram a vontade de concorrer à CMPN com o carimbo do partido.

“A nossa resistência à possível candidatura de Jorge Martins tem a ver com a forma como ele abordou a questão. Quer o apoio do PAICV, mas nunca manifestou formalmente essa vontade. De resto, avisa desde logo que será uma candidatura independente quando um partido como o PAICV, que governa este país, tem de ter uma candidatura própria. Não vamos simplesmente aproveitar um candidato, ainda que seja uma pessoa próxima do partido, mesmo porque temos o amargo exemplo da década de noventa em que apoiámos Jorge Santos na Ribeira Grande para derrotar o MpD e depois deu no que deu”, alega um dirigente tambarina no Porto Novo, para quem Jorge Martins poderia ser, de facto, uma mais-valia para o projecto autárquico do PAICV se tivesse manifestado o seu desejo mais cedo. Ou se quisesse liderar uma candidatura do partido e não um projecto independente. Mas um analista contra-argumenta com a ideia de que o que interessa é quem tem maior potencial para aglutinar as várias responsabilidades dos munícipes de Porto Novo levando a uma candidatura ganhadora nas próximas autárquicas de 2012. “De nada servem as lógicas estritamente partidárias na escolha dos candidatos, quando quem vota são as pessoas. Nas eleições municipais, cada vez mais, os eleitores votam em função da confiança que o líder da lista lhes transmite, porque ele será a autoridade que durante quatro anos estará mais próxima deles, para resolver os problemas quotidianos do município”. E o analista conclui que, sob esse ponto de vista, Jorge Martins parece levar “uma larga vantagem” em relação aos outros possíveis candidatos que foram perdendo sucessivamente vez e voz ao longo dos anos.

Há quem pense mesmo que com as quatro cartas que tem sobre a mesa, o PAICV tem hipóteses frente ao actual edil e candidato do MpD à sua própria sucessão, Amadeu Cruz, já que, apesar de cada um deles reivindicar “património político” no concelho para impulsionar a respectiva candidatura, nenhum parece ter nesta altura pedalada para dar um passo que seria histórico: conquistar pela primeira vez a Câmara do Porto Novo, que tem fugido ao PAICV desde que existem eleições livres no concelho. O momento político assim indica. Rosa Rocha liderou em 2004 a equipa tambarina que conseguiu, pela primeira e única vez na história do concelho, colocar três vereadores na câmara municipal, perdendo a disputa por escassos cem votos, mas a sua projecção já não é o que era. Perdeu muito do seu capital político depois da sua efémera, e mal sucedida, passagem pela Praia, enquanto Secretária de Estado da Agricultura, em 2006.

Já Emitério Ramos concorreu em 2008 contra a equipa do MpD que neste momento comanda o governo municipal. E perdeu. De lá para cá, a sua imagem entrou em curva descendente até porque, justo ou não, é acusado de ter feito pouco em prol do concelho enquanto esteve na Direcção-Geral da Agricultura.

Eleito deputado da nação em Fevereiro último, Carlos Delgado tem sido o rosto mais visível do PAICV por aquelas bandas, liderando todos os combates políticos dos últimos três anos não só no Porto Novo. Porém a sua intenção de se candidatar à CMPN choca com a ideia feita de que é mais homem de combate do que um executivo.

Desses, Manuel Mota é o “mais virgem” nas andanças municipais. Tido como próximo de Josefá Barbosa, que deu o corpo ao manifesto nos anos noventa, momento particularmente difícil para o PAICV que, fragilizado pelo fim do partido único fazia a sua dura travessia no deserto político de Santo Antão frente a um MpD omnipotente em toda a ilha, Porto Novo inclusive. Mas Barbosa parece ter perdido força, e hoje é mais uma sombra do político incontrolável do Sul de Santo Antão que já foi. Aliás hoje, parece ser o que tem menos projecção no município.

Lançados estes dados, a escolha do candidato tambarina às autárquicas no Porto Novo promete render ainda muito debate interno. É que, apesar de a estrutura local entender que o processo negocial entre Rosa, Emitério, Cacói e Mota está bastante avançado no sentido de consensualizar um candidato antes de finais de Novembro, há quem acredite ainda num volte-face. Afinal, quem decide uma eleição são as pessoas e não as lógicas partidárias ou os interesses instalados. Nessa perspectiva, Jorge Martins pode ser a alternativa que o PAICV precisa para chegar à cadeira dos Paços do Concelho. Quem sabe uma negociação tranquila não o consegue convencer a liderar uma lista do próprio partido.
 

 

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