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POBRE JOÃO SEMANA! PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Ricardo Sousa   
Terça, 11 Outubro 2011 08:28

POBRE JOÃO SEMANA!

As pessoas da minha idade, mais velhas e algumas posteriores a mim e até à independência, que frequentaram o liceu ou têm hábitos de leitura, conhecem bem essa figura de médico. Utilizei-a para título de uma série de artigos intitulados Retalhos da Vida de um João Semana Insular para relatar algumas experiências e peripécias como delegado de saúde em várias ilhas do arquipélago, onde trabalhei no tempo colonial.

Muitos devem ainda ter viva recordação da figura de João Semana de Júlio Dinis ou Diana de Aveleda, como assinava na sua colaboração no Jornal do Porto, durante dois anos, já doente (tuberculose, que iria vitimá-lo), mais tarde rotulada de Sermões da Província, e, por fim, no romance As Pupilas do Senhor Reitor, que conhecemos do liceu, onde criou essa simpática figura.

Júlio Dinis, na realidade, Joaquim Guilherme Gomes Coelho, era médico, sofria de tuberculose e acreditava na acção curativa do clima sobre certas doenças, numa altura em que estavam longe da descoberta dos antibióticos – ar puro do campo e da montanha no tratamento da tuberculose. Fazia, pelo que conhecia do meio rural, a apologia da vida no campo, que nos encantou a todos ao ler A Morgadinha dos Canaviais, que, a nós cabo-verdianos, dizia muito por vivermos ou conhecermos, na grande maioria, o campo. De salientar que, durante muito tempo, se procedeu desse modo com a tuberculose; sinal disso é os sanatórios terem sido construídos na montanha florestada.

A figura do colega João Semana vem à baila face ao que lemos, ouvimos e sabemos do comportamento de alguns colegas nos dias que correm, por ter servido de modelo, de referência para muitos outros praticantes da Medicina na sua época, e posteriormente, até há bem pouco tempo: competência profissional, desinteresse material, sensibilidade, disponibilidade, entrega e sacerdócio, este no seu bom sentido porque até ele vem sendo desvirtuado.

A degradação da ética, da deontologia – e não me refiro somente a Cabo Verde – deve-se ao espírito corporativo e partidário que impediu a selecção dos melhores, fechou os olhos às más práticas e abusos de alguns e ficou indiferente, para não dizer autista, aos avisos que sugeriam outro rumo e previram a deterioração a que se chegou.

Vivemos num mundo bizarro! Os defensores mais acérrimos da economia de mercado, os liberais extremistas que teorizam, desde Adam Smith, a capacidade reguladora da oferta e da procura estão, actualmente, face a um dilema imprevisto. É o homem (os seus órgãos, seus genes, tecidos, estatuto, pensamento) que é dominado pelo mercado, instrumentalizado e coisificado. Dito de outro jeito mais chão e directo, essa mecânica do mercado (a tal “mão invisível” de Adam Smith, que, nos nossos dias, já não faz a regulação automática do mercado mas, antes, um manguito) é capaz canibalizar até a humanidade do homem. Isto é visto claramente na biotecnologia, com poder de criar um novo género humano, ao mesmo tempo que abre novos horizontes para curar certas disfunções e doenças como a miopatia, a mucoviscidose, a anemia de células falciformes, a Coreia de Huntington, etc., embora isso possa vir a custar rios de dinheiro aos doentes por serem técnicas já patenteadas. Obviamente, que a concubinagem incestuosa entre o mundo do negócio e a investigação científica, bem como, certamente, a condenável promiscuidade entre o mercantilismo e a prática clínica têm por consequência a desqualificação do estatuto do conhecimento e da Medicina.

Bizarro, igualmente porque a Física leva, agora, a atribuir à matéria inerte propriedades outrora reservadas à vida, preocupação que não estou certo possa atingir os colegas mais novos. Então, no domínio da biologia Genética e da Neurociência, esta crise paradoxal do materialismo é ainda mais gritante. Parece adquirido, nos tempos que correm, que o que define uma realidade – viva ou inerte - não é a substância de que é constituída, mas o código ou informação que preside à sua formação. Flagrante em matéria genética, porque a especificidade de um gene não é o seu aspecto substantivo, nucleótido, mas a mensagem que é capaz de veicular e transmitir. O princípio da vida procede, portanto, de uma certa linguagem, de uma mensagem, de uma palavra transmitida, recopiada através de toda a cadeia do ser vivo. Uma palavra ou mensagem que sabemos copiar parcialmente, mas sem ainda a compreender, de que os espiritualistas lançam mão para identificar com a mensagem bíblica.

Adeche! Será que estou padecendo de alguma fixação na economia de mercado? Talvez, porque queria falar-vos da figura de João Semana e cá estou eu a desviar-me e a meter-me com Adam Smith, seus maus seguidores e outras entidades.

Em verdade, a Medicina está agora atormentada pela sua própria tecnicidade em época de mercantilismo desabrido. Os grandes progressos dos últimos anos transformaram a prática médica: ultra-especialização, enorme instrumentalização, precisão nas suas intervenções. Focaliza, actualmente, o seu trabalho nos tecidos, vasos, genes, partes do corpo, órgãos, ajudada nisso por uma tecnologia cada vez mais perfeita – a imagiologia, a informática, o laser, ultrassons, sem falar na procriação médica assistida ou nas próximas terapias genéticas. Com toda essa panóplia tecnológica e mecanização, até se esquece do doente em benefício dos seus órgãos, não escapando disso nem a psiquiatria.

Claro que o João Semana morreu mesmo de hemoptise fulminante na sociedade de consumo e de alta tecnologia genética, onde o que conta é o dinheiro, se investe no curso e especialidade para obter lucros imediatos, não como antes, em que se conformava em obter o necessário, suficiente e razoável para uma vida decente e honrada, em vez de cada vez mais, sem muito cuidar da ética profissional e da moral, atropelando até pelo caminho tudo e todos, incluindo colegas que seguem a simples prática do conhecimento e do dever austero e iniludível. Falar das qualidades do João Semana já faz rir os mais novos que nem acreditam que tal personagem possa ter existido.

Obviamente que não sugiro o regresso ao passado; recordo a figura tão simplesmente na tentativa de reabilitar algumas das suas qualidades e virtudes porque o passado é património comum e a coragem de ontem é um crédito incobrável dos que a praticaram
 

 

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