| Economia e submissão |
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| Escrito por Ricardo Sousa |
| Terça, 25 Outubro 2011 08:55 |
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Economia e submissão Ao explorar a sua filosofia hedonista numa vertente política, Onfray propõe em seu livro Politique Du rebelle: traitè de rèsistance et d’insoumission (1997), reencantar o mundo submisso ao economismo.
Por: José João Neves Barbosa Vicente Preocupado em formular um pensamento que torne impossível os períodos sombrios, Onfray pensa uma esquerda diferente daquela que coloca como meta acabar com a propriedade privada que, lamentavelmente, conforme se pode constatar ao longo da história, passa inelutavelmente pela edificação dos muros e pelo sistema policial associado. Para ele, portanto, a grande lição dos tempos sombrios do século XX para a esquerda que não se satisfaz com o mundo tal qual ele se apresenta é evitar fazer da propriedade privada o bode expiatório. Assim, a opção libertaria da esquerda deve passar por uma acção menos obcecada pela destruição da propriedade, pelas expropriações violentas e concentrar na proposta de uma economia alternativa, cuja propriedade seria a elaboração de modos polimorfos de produção paralelos aos do capitalismo, ou seja, modalidades transversais dentro do próprio capitalismo. Para isso, é necessário antes, uma “revolução copernicana” que acabe com a submissão dos homens à economia liberal e que submeta a economia a um projecto hedonista de vida em comum em que, em vez dos homens servirem ao capital, este será colocado à disposição deles. Um projecto que, certamente, trará a política de volta como arte da vida em comum esquecida após o triunfo do capitalismo em beneficio de um puro e simples elogio da técnica de administração dos homens assim como dos bens, transformando desse modo, na ciência da submissão dos escravos aos senhores. Essa “revolução” contribuirá, assim, para acabar com a “religião da economia” presente em nossa época, cujo deus é o capital e cujo fieis são homens vulgares sujeitos a impostos e corveias à vontade. Para lutar contra essa “religião”, Onfray propõe um ateísmo capaz de confinar a economia no registo único dos meios e não dos fins. Um ateísmo que consiga fazer com que a economia fique a serviço e parar de exigir ser servida, que ela possa se submeter à política e que esta pare de agir como sua servente. O fundamento dessa “religião da economia” que supõe a primazia da mercadoria sobre o homem pode ser encontrado na Antiguidade e definido como “síndrome de Hecaton”, em homenagem a Hecaton, filósofo estoico do século II antes de nossa era, autor de um único Tratado sobre os deveres, perdido, porém comentado e criticado por Cícero. Conforme constatação de Onfray, de acordo com Hecaton, entre a salvação de um terceiro e a conservação de seu próprio interesse, deve-se, sem hesitar, preferir a segunda solução. Isso equivale a dar preferência ao interesse pessoal sobre a humanidade. Nessa ordem de ideia, infelizmente, a política é colocada em segundo plano a serviço da economia e, com isso, se celebra economia como actividade isolada, excluindo a política e a ética. Uma situação que perdurará enquanto a ordem das coisas permanecer segundo as modalidades desejadas por Hecaton. Definindo a economia, a partir dessa constatação, como uma “alquimia canibal” que faz o dinheiro dos senhores desde o tempo dos escravos, Onfray afirma que os “escravos dos tempos modernos” são utilizados e dispensados, explorados, humilhados e ofendidos, depois licenciados conforme as necessidades do mercado, para aumentar a massa monetária que circulam em fluxos tensos e jactos contínuos. Invisíveis e todo poderosos, esses fluxos monetários distribuem a miséria ou riqueza à sua passagem: fortuna aqui, ruína ali, acumulação em um lugar, dispersão em outro, entesouramento para um, dilapidação para aquele que não for tocado pela protecção e pela graça desses deslocamentos de energia. A miséria dos homens permitiu a “santidade do dinheiro”, o luxo manifesta esse deus invisível e não há nenhuma soberania individual sem participação nessa “religião”, sublinha Onfray. Mas, infelizmente, o capital é inacessível para aqueles cuja existência se dedica a promovê-lo, a tornar possível seu fluxo. “Os reprovados”, diz Onfray, aspiram tanto ao que lhes falta quanto os bem-aventurados desfrutam do que, para eles, é uma realidade. O desejo faz do “escravo” um guardião do templo onde comungam seus senhores porque ele espera, um dia, participar dos banquetes. Assim, na “religião do capital” existem aqueles que dela desfrutam, evidentemente, e aqueles que acreditam poder dela desfrutar um dia e, por esta razão, desejam a manutenção das regras do jogo com a única esperança de poder, amanhã, sentar-se diante do tapete verde. Por isso, Onfray classifica a economia dentro do nosso sistema capitalista, como duplamente canibal: priva o escravo de sua existência e torna sua essência frágil, precária e inteiramente alienada na hipótese de uma procissão em direcção a algo do qual está excluído para sem pre. Assim como o Deus dos teistas, o capital flutuante não aparece nunca diretamente, mas sempre como encarnação, o efeito produzido, a obra: um indivíduo fazendo fortuna, outro falindo, uma sociedade anónima surgindo aqui, uma região massacrada ali. Onfray é categórico: não é possível pensar uma sociedade sem escravos e senhores. A sociedade sem classes, para ele, equivale a uma ficção, nem possível nem sequer desejável. Por isso é importante que se multipliquem as diferenças! E tanto quanto for possível, que as solicitemos. Em compensação, as desigualdades, quer dizer, sua exploração económica, não. Assim, para que a riqueza seja melhor repartida, a habitação um direito e possibilidade para todos, o consumo uma possibilidade oferecida indistintamente às classes desfavorecidas assim como às demais, Onfray entende que é preciso parar de submeter a política à tirania de uma economia funcionando com o único objectivo de aumentar o empobrecimento e de tornar possível a riqueza dos ricos através de uma pobreza sempre maior dos pobres. É necessário o fim do economismo celebrado sob a forma de religião, entendido como único laço social possível hoje. A submissão da economia à lei da política é, para Onfray, uma necessidade vital. Enquanto perdurar o inverso, a lei do mercado triunfará e conheceremos corridas desenfreadas em direcção a mais mortes, sofrimentos e dores.
Filósofo, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Editor da GRIOT – Revista de Filosofia. |



